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Andenken e Mnemosyne (1)

Zu Hölderlin - Griechenlandreisen [2000]

Hölderlin

  1. Nem a pátria, nem o Cristianismo, nem o “Metafísico” (entendido como o supra-sensível que governa todo o sensível) são suficientes para sequer indicar o domínio fundador de Hölderlin, quanto mais para nele pensar adiante.
  2. Ainda se está habituado a admitir como possibilidades de salvação do homem no meio do ente apenas três disposições: a confiança no brilho e no soar, no tecer e no repousar das coisas próximas; a fuga para além de tudo isso em direção ao “Ideal”; e o equilíbrio calculado entre ambos — como se fosse a salvação o que importasse.
  3. Como esse hábito metafísico guia e satisfaz toda tentativa de determinação e fixação histórica da situação do poeta numa familiaridade já quase irreconhecível, toda interpretação do poeta recai no “historicismo” estético, existencial ou político, o qual jamais pode admitir que na poesia de Hölderlin seja experimentada uma singularidade essencial do instante histórico — um incondicionado da decisão, não do Absoluto metafisicamente “supra-temporal”.
  4. Essa “singularidade” do instante da história do Ser jamais pode ser provada pelo destaque da incomum “linguagem”, pelas particularidades das “vivências” e “conteúdos”, pelo que há de saliente no destino humano — pois tudo isso já é consequência essencial daquela momentaneidade em que começa um abalo fundamental de toda verdade metafísica, e com ela também da verdade “religiosa”, “estética” e “política” do ente; daí o perigo especial de interpretar erroneamente o destino “humano” do poeta de modo “psicológico”, ou de o reduzir a uma “interpretação simbólica”, tomando sua passagem como a de um homem historicamente registrável.
  5. O que é excepcional e talvez perturbador pode ser anotado, e ao fim a “obra” explicada a partir dessas circunstâncias ou por elas rodeada; ao contrário disso, o caráter de ser-aí do poeta deve ser fundado em um saber que seja ele próprio insistente no ser-aí, no qual saber desperta logo uma compreensão de que na poesia mais essencial desse poeta não se dizem “conteúdos”, não se fixam “metas”, não se louva nada presente e nenhum estado anímico é apenas “movido”.
  6. O poeta — do tempo por vir — é poetado, quer dizer, esse poeta é ele mesmo fundado; o primeiro iniciante deve tornar-se Hölderlin — esse homem — ele mesmo, mas esse “tornar-se” não se cumpre em que esse homem diga e componha certas palavras e por tal desempenho assuma uma missão; o “tornar-se” é aqui o salto não apenas para um modo diferente de ser humano, mas para o ser-aí, que funda, conserva e suporta o “Aí” — a clareira dos âmbitos das decisões entre o deus e o homem, a terra e o mundo — como o lugar-tempo do próprio Ser; o fundador insistente do ser-aí não pode descrevê-lo, mas deve sê-lo, errando por sua clareira; por isso ele diz, ao dizer, sempre outra coisa, e contudo o dito nunca é o conteúdo sustentável, tampouco símbolo, mas um aceno dos acenos para a história daquele salto do homem Hölderlin no ser-aí do poeta, enquanto insistente no ser-aí que nosso pensamento denomina aquilo que o poeta, ainda pré-fundando e para além das gerações de hoje e de amanhã, conserva; por isso seu afastamento do simples e oculto florescimento da humanidade é tão definitivo, e a definitividade da despedida não deixa simplesmente regressar a antiga essência das coisas — a despedida é antes e somente a recolha fundadora de tudo o que foi perturbado do habitual e do gasto na silenciosa magnificência do pertencimento ao Ser inalcançável.
  7. Uma vez — e aqui ainda em silêncio — o poeta rompe o silêncio tardiamente, isto é, cedo no primeiro salto para o ser-aí, e diz a despedida no errar do Aí, cujo ser é reservado apenas à “conversa celestial”:
    • “A primavera vem. E cada coisa, à sua maneira, / Floresce. Mas ele está longe; não mais presente. / Em erro foi agora; pois bons demais são / os gênios; conversa celestial é a dele agora.” — “Ganimedes”, estrofe final. IV, 69.
  8. Dizer uma palavra de Hölderlin, e não “sobre” ele, exige de antemão o saber de que ele não pode ser tomado como refúgio de anseios nebulosos nem como confirmação de “estados de ânimo” cansados, tampouco como cantor “patriótico” ou como anunciador de “vivências” “religiosas”.
  9. Dizer de Hölderlin significa saber que seu poetar era tão inteiramente sabedor, interrogante, sóbrio, que as corriqueiras pretensões de saber caem essencialmente diante dessa poesia, caso cheguem a valer e não cedam o campo ao embotado “vivenciar” como forma de acesso adequada; a disposição fundamental de Hölderlin é — de acordo com a essência corretamente compreendida da “disposição” — um saber de um âmbito da decisão entre o abandono do ente por Deus, isto é, sua impotência essencial para fundar um deus inaugural, e a fundação de uma divindade dos deuses — o saber da proximidade de uma desolação essencial e histórica do ser histórico, ao qual saber só podem se aproximar os que mais profundamente interrogam, recolhidos interrogantes sobre Um.
  10. Não porque Hölderlin fosse “apenas” um poeta e, segundo a representação usual do poeta, movesse o que havia a dizer “apenas” de modo “obscuro” no “sentimento”, ele não foi “compreendido” pelos pensadores de seu tempo — Hegel e Schelling —; mas porque o pensar desses pensadores, e sobretudo o de Hegel, não era e não podia ser suficientemente sabedor e interrogante, o saber sóbrio e simples das decisões de Hölderlin teve de permanecer inacessível a eles.
  11. Quando as distorções meio “românticas”, meio “classicistas” e as más interpretações desse poeta, derivadas de um “Nietzsche” meio compreendido, poderão ser superadas? Somente quando os alemães tiverem se tornado suficientemente duros e concentrados, constantes e ricos para a sobriedade do saber mais audaz sobre as mais simples decisões, por meio de uma meditação que queima os pouquíssimos; somente quando toda “psicologia” e toda “história” — a política tanto quanto a do “espírito” e das obras — forem superadas como formas ainda dominantes do “conhecer” e do “saber”, e o anseio do “vivenciar” for quebrado, o olhar interrogante não mais desviará do que “é”: do abandono do ente pelo Ser, que se confirma com um testemunho aterrador no encobrimento pela Romantik do “sangue”, do “solo”, da “etnia” e do “Reich”.
  12. Esse não-mais-desviar pode ser apenas o plano resistente para a aproximação ousada de um ponto de vista, em cujo horizonte “morte”, “diabo” e “cavaleiro” são apenas máscaras para os Ab-ismos do Ser ainda não compostos, mas a compor; em longa antecedência, em história oculta, o Ser deve ser fundado novamente, e isto é, pela primeira vez em sua verdade, até que o ente entrementes abandonado a si mesmo possa ser perpassado pelo Ser, cujo imperar não precisa de poder algum e não conhece a impotência.
  13. Fundadores do Ser e fundamentadores da verdade do Ser — poetas e pensadores em longa solidão e raridade — devem primeiro ajudar uma história a chegar à sua essência, para que pela história seja devolvido à terra o que lhe é intocável, e sua lei se mantenha no respeito, e toda perturbação pela fúria do calcular seja domada e dispersada por uma única brandura.
  14. Apenas os pensantes podem e devem ouvir o poeta e sua palavra, pois estão protegidos também contra extrair da poesia desse poeta uma “filosofia”; apenas os pensantes, interrogativamente equipados para aquele testemunho que o Ser e sua verdade exigirão primeiro e sempre de novo — a aniquilação e a despedida —, que são a assunção inaugural e a cada vez única e adequada à essência da decisão.
  15. Se já o ente e seu empreendimento, em tempos de perturbações e reviravoltas incisivas, exige suas “vítimas” e aniquila os homens — que transfiguradora dissolução de quais crescentes fundadores exige então o Ser em seus próprios tempos?
  16. O “sóbrio” de Hölderlin é o “sagrado-sóbrio” — de modo algum o apenas cotidianamente habitual e calculante, o sem entusiasmo e sem imaginação, nivelado numa transparência sempre bem-arrumada, mas sim o silenciosamente contido e claro do mais alto levante do Ser através de todas as contragargantas do decidível; essa sobriedade Hölderlin chama de “sagrada” porque é a disponibilidade para a decisão sobre o deus — o sóbrio não designa aqui o resíduo de uma desilusão, mas o início que se contém a si mesmo da mais ampla disposição de um saber que se tornou pronto para o arroubamento no sacrifício extremo; o “Sagrado” não é a propriedade tomada emprestada de um deus fixo, mas a palavra que entoa a disposição fundamental da disponibilidade para a desolação divina e sua perseverança, e determina todo saber do dito em tal poesia.
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