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obra:ga68:hegel

5. Hegel

1. A linguagem conceitual heideggeriana redefine “ser” e “essência” hegelianos como desdobramentos históricos do início grego (ἐνέϱγεια, ἐντελέχεια) e da reinterpretação kantiana da objetividade, situando a “efetividade” (Wirklichkeit) hegeliana e a “objetidade” (Gegenständlichkeit) dentro da história da metafísica e distinguindo-as do uso próprio de “ser” e “seer” (Seyn) em Ser e Tempo.

  • A efetividade hegeliana corresponde à presença consumada do que está presente, herdeira da ἐντελέχεια grega transformada em actus.
  • O nada, em Hegel, aparece unido ao ser apenas de modo abstrato e unilateral, sem ser pensado como o nada da própria efetividade.
  • O uso heideggeriano de “ser” distingue-se em três registros: a entidade enquanto tal (ὂν ᾗ ὄν) até a efetividade hegeliana e a vontade de poder nietzschiana; o seer como fundamento e concessão da entidade, a φύσις originária; e a restrição do termo “ser” ao primeiro desses registros.

2. O pensamento de Hegel articula-se em três movimentos correlatos: a tríade tese-antítese-síntese como estrutura do juízo e da conexão; a tríade consciência-autoconsciência-razão como unidade da objetividade e do ser-aí; e a tríade imediatidade-mediação-superação (Aufhebung) como ligação entre as duas anteriores e como origem da absolutidade.

  • O “não” origina-se do absoluto enquanto consciência, sendo o pensar tomado como correlação incondicionada entre sujeito e objeto, com categorias a um só tempo objetivas e subjetivas.
  • A consideração histórica hegeliana desdobra-se em pensamento absoluto, em ser-consigo-mesmo como liberdade que se sabe pensamento absoluto e se apresenta como tal, e em ser enquanto liberdade identificado a um saber incondicionado.

3. O devir hegeliano designa o processo pelo qual algo se torna aquilo que já é, retornando ao seu fundamento e à sua essência mediante uma mediação determinante, processo que Hegel toma como ponto de partida ao pensar o devir do absoluto a partir do ser, entendido como o nada dos entes em sua efetividade absoluta.

  • Distingue-se o Anfang, aquele início do qual algo emerge permanecendo nele e nele se fundando, do Beginn, a mera inceptação da qual se parte e que é superada e posta de lado.
  • O começo hegeliano com a concepção absoluta do ego cogito representa uma interpretação propriamente moderna do ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, sendo a efetividade tomada como ser-consciente de algo enquanto objeto.

4. O pensamento puro do pensar toma a si mesmo e àquilo que pensa em imediatidade como fio condutor e fundamento da projeção da verdade do ser, constituindo um pensar que parte do pensamento absoluto e que se articula com as noções de ser e devir, ser e negatividade, ser e razão.

5. O ponto de vista superior alcançado pela autoconsciência do espírito, desde a Crítica da Razão Pura até a Fenomenologia do Espírito hegeliana, consiste no autoconhecimento como conhecimento da consciência do objeto, o que transforma a antiga metafísica geral na “metafísica propriamente dita” enquanto ocupação do espírito absoluto consigo mesmo.

  • A teologia, outrora o estágio supremo da metafísica propriamente dita, cede lugar a uma metafísica geral absoluta na qual o espírito absoluto, “deus”, permanece puramente consigo na Ciência da Lógica.
  • A filosofia permanece, até a consumação do idealismo alemão, resguardada pela ausência de questionamento de sua posição fundamental e pela interpretação cristã da totalidade dos entes, transformação da qual Nietzsche é o primeiro pensador de transição.

6. O suposto impacto do idealismo alemão em seu sistema próprio é nulo, por não ter sido compreendido e por se postular como consumação, restando apenas como singularidade histórica que a chamada “vida” jamais se dispôs a compreender.

  • Um impacto efetivo dá-se pelo desencadeamento de oposição, isto é, pela negação da filosofia e pela invocação do seu oposto, como ocorre com Schopenhauer, com a “vida” e com Nietzsche.
  • A adoção e modificação de conceitos, bem como a formação de escolas e de uma filologia ou erudição em torno da filosofia em questão, constituem apenas consequências indiferentes desse processo.
  • Reconhece-se a Hegel o acerto de declarar os entes e o efetivo da representação imediata como o “abstrato”, ainda que aquilo que para ele seja o fundamento compreensivo constitua, na verdade, a justificação incondicionada do mais abstrato, visto que a verdade do seer é o inteiramente inquestionado e inquestionável.
  • A origem da negatividade hegeliana permanece em aberto, remetendo ao μὴ ὄν, à privação e à oposição enquanto fio condutor da interpretação metafísica do ser, cuja descoberta platônica da privação como ente deixa em suspenso o modo pelo qual o próprio ser e o negativo são aí pensados.

7. A metafísica concebe o ser como entidade sob a forma da representidade (Vorgestelltheit), sendo a entidade tomada como ser-asserido categorial, capturada no predicado, e as categorias determinadas tanto objetiva quanto subjetivamente como absolutas, o que remete à pensabilidade do ego finito ou do espírito absoluto a serviço da “vida” nietzschiana, unificando o pensar como forma de realização e como fio condutor na perspectiva de Ser e Tempo.

8. A confrontação com Hegel não busca um ponto de vista ainda superior ao do espírito e da metafísica moderna, nem um ponto de vista do espírito em geral, mas antes um ponto de vista do ser-aí (Da-sein) e, por conseguinte, nenhum ponto de vista metafísico da entidade dos entes, e sim do seer, o que exige tomar a posição metafísica fundamental não como mera reflexão incidental, mas reconduzi-la, a partir da questão diretriz do sistema da ciência, à questão fundamental.

9. O começo lógico hegeliano do “ser puro” realiza-se no elemento de um pensamento livre e autocontido, no saber puro tomado como imediatidade e como a última e absoluta verdade da consciência, saber esse que, tendo-se despojado de toda alteridade e diferença, culmina no vazio como o próprio início da filosofia.

  • O saber puro, certeza tornada verdade, consiste no saber-se a si mesmo como saber, sendo-se ao mesmo tempo objeto e objetidade, de modo que o próprio saber parece desaparecer no ser puro enquanto um ter-se retirado.
  • Permanece em aberto até que ponto pertence à natureza do começo do pensar, enquanto pensamento do pensar, o fato de ele mesmo ser, articulando-se aí começo e consumação como incondicionalidade do pensar.
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