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Hans Ruin

GA65 – ESTRUTURA DA OBRA

O tema ou questão filosófica geral de Contribuições é o mesmo de Ser e Tempo, a saber, a questão do ser, que permaneceu como o horizonte das buscas filosóficas de Heidegger ao longo de toda a sua vida. Mas, como Ser e Tempo apontou em suas seções introdutórias, a questão do ser é a mais geral e, portanto, em certo sentido, a mais vazia de todas as questões possíveis. Há uma razão pela qual ela foi “esquecida” ou ignorada, a saber, que, ao longo da história, ela se apresentou como se não fosse uma pergunta de forma alguma. Para despertar até mesmo a relevância dessa aparente não-pergunta, é preciso evidenciar sua qualidade de pergunta. Em Ser e Tempo, o procedimento hermenêutico segue por meio de um exame existencial-ontológico do próprio questionador, ou seja, do Dasein. O livro possui uma estrutura clara e sistemática, inspirada nos grandes antecessores do gênero, em particular Husserl e Kant. À medida que o livro chega ao seu fim provisório (que viria a se tornar seu fim real, já que a prometida continuação nunca foi publicada), ele revelou uma série de estratos ontológicos, todos relacionados ao estar-no-mundo do Dasein, culminando na temporalidade extática, que resplandece como um fundamento quase transcendental para o significado do ser.

Talvez o desvio mais óbvio do programa de Ser e Tempo em Contribuições seja precisamente o abandono do ideal do Sistema. Na importantíssima seção 39, onde Heidegger comenta sobre a estrutura e a forma do novo “pensamento inceptual” tentado em Contribuições, ele afirma que os sistemas pertencem ao passado, que só têm seu lugar na história das respostas à questão orientadora do ser (GA65:81). No lugar do sistema e de uma abordagem sistemática em geral, ele apresenta aqui o ideal da “junção”, die Fuge, a fuga. O esboço ou contribuição apresentada no livro é uma tentativa de proporcionar uma articulação desse pensamento inceptual. Consequentemente, as 281 seções estão organizadas em seis partes ou capítulos, cada um dos quais ele descreve como articulações separadas (Fügungen) dentro da articulação geral (Fuge). Elas são chamadas de “Eco” (Der Anklang), “Interação” (Das Zuspiel), “Salto” (Der Sprung), “Fundamentação” (Die Gründung), “Aqueles que estão por vir” (Die Zukünftigen) e “O Último Deus” (Die letzte Gott). Essas seis são seguidas por uma última seção extensa intitulada simplesmente “Seer” (Das Seyn), que aparentemente se destinava a “Contribuições”, mas cuja posição no conjunto nunca foi definitivamente definida pelo próprio Heidegger. Tem havido uma grande quantidade de discussões em torno do significado e da importância dessa estrutura metafórica e enigmática. Qual é a lógica por trás dessa ordenação específica do Material? Existe um argumento progressivo ou em desenvolvimento que a motive, ou não se trata, ao contrário, de uma ordenação aleatória de anotações que, na verdade, não permite uma estrutura distinta? Ao discutir a estrutura ele mesmo, Heidegger é evasivo, afirmando que cada uma das articulações “se sustenta por si mesma”, mas com o objetivo de “tornar o essencial único mais premente” (GA65:82). Em outra observação, ele define a junção como uma disposição (Verfügung) que se submete ao chamado (sich den Zuruf fügende) e, assim, fundamenta o Dasein (GA65:82). A tradução para o inglês diz: “a junção é a união que impõe o chamado e, assim, fundamenta o Dasein”, o que é uma tentativa admirável de preservar o jogo de palavras com “Fuge”, mas que, no entanto, confunde o sentido filosófico da passagem. O que Heidegger está sugerindo é, essencialmente, que a estrutura da obra, de alguma forma, responde à questão em jogo, que se torna visível — ou talvez audível — para quem está preparado para ouvir seu chamado.

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