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obra:ga61:3.1b

3.1.B Sorge

B. Sentido relacional da vida: cuidar (Sorgen)

O cuidar constitui, indicado formalmente e não exigido de antemão, o fundamental sentido relacional da vida em si mesma, na contramão da intenção habitual de toda consideração, ao passo que, a partir do princípio no concreto, no dado do fenômeno, alcança-se desde o começo uma dimensão do fenomenal que torna possível um principiar concreto para a explicação categorial.

a) Caráter do mundo no cuidar: significância (Bedeutsamkeit)

Tomada em sentido verbal, a vida, segundo seu sentido relacional, interpreta-se como cuidar, cuidar por e cuidar de algo, viver cuidando de algo, sem que esse caráter implique estar a vida sempre às voltas com maneirismos escrupulosos, pois no frenesi solto, na indiferença e na estagnação o “viver” permanece igualmente caracterizado por cuidar, cabendo determinar como significância aquilo a que o cuidar se atém.

  • Significância constitui uma determinação categorial de mundo.
  • Os objetos de um mundo, objetos mundanos (weltlich) com caráter de mundo (welthaft), são vividos no caráter da significância.

No sentido relacional mais amplo, viver é cuidar pelo “pão de cada dia”, expressão a ser compreendida de modo bem amplo e indicativo-formal, sendo a indigência (Darbung; privatio, carentia) o como-fundamental, ao modo de relação e de execução, do sentido do ser da vida, resistindo esse como-fundamental de maneira ainda mais tenaz onde a vida se julga na posse de si e se consome inadvertidamente numa tarefa objetiva, já que a objetividade segura é fuga insegura diante da faticidade e desconhece a si mesma justamente por acreditar, na fuga, aumentar a objetividade, quando é na faticidade que esta alcança sua mais radical apropriação.

O sentido categorial de significância deve ser tomado de modo correspondentemente amplo e como caráter categorial dos objetos, isto é, daquilo em função de que está o cuidar, sem que com isso se intrometa uma teoria sobre a objetualidade como tal, da qual convém manter distância.

O mundo, os objetos com caráter de mundo (welthaft), estão presentes no como-fundamental da relação da vida que é o cuidar, deparando-se com este e sendo encontrados em seu caminho, de modo que encontrar os objetos é experimentá-los em seu respectivo encontro (Begegnis), este último caracterizando o modo fundamental do Dasein dos objetos mundanos, enquanto a experiência caracteriza o modo fundamental de aceder a eles.

  • A experiência aqui não se compreende em sentido teórico, como percepção empírica contraposta ao pensamento racional, mas deve ser tomada tão amplamente quanto o sentido relacional do cuidar, que ela caracteriza num modo de execução a ser assegurado posteriormente.
  • O caráter de conhecimento domina, de certa forma, o tomar conhecimento no cuidar.

Toda e qualquer experiência é em si mesma um encontro, e encontro em e para um cuidar, sendo o caráter fundamental do objeto sempre o de estar e ser encontrado no caminho da cura (Sorge), experimentado na significância, do que decorre que o “estar aí” do mundo, o caráter de realidade do mundo da vida fática, não é tão fácil quanto o representa a teoria transcendental do conhecimento, nem tão evidente e sem problemas quanto pensa o realismo, sendo apenas a partir desse sentido objetual primário do conteúdo que se determina, a cada vez, o caráter de sentido do Dasein, da realidade efetiva (Wirklichkeit) e da realidade (Realität).

Não é assim que os objetos estivessem aí como realidades nuas, a exemplo de objetos naturais, revestidos depois, no decurso de sua experiência, de um caráter de valor, tampouco a constituição da natureza fornece apenas minimamente um fundamento para gêneros superiores de objetos, uma vez que a objetualidade natureza só brota do sentido fundamental do ser do objeto do mundo vivido, experimentado e encontrado.

Significância deve ser tomada o mais amplamente possível, sem ser tensionada num âmbito determinado de objetos, não podendo ser identificada com valor, categoria que, por seu turno, só pode ser destacada mediante determinada formulação a partir da experiência concreta do mundo, sendo então impostada, com direito ou não, na esfera própria do ser, e tendo sua gênese representada de modo análogo à natureza enquanto realidade fundamental, fundamento da realidade.

Com isso torna-se conhecido apenas o avançar desorientador de uma teoria, cuja superação constitui tarefa principial a ser apreendida em suas raízes e julgada quanto às suas pretensões de fundamentação e de solução dos problemas, não bastando, filosoficamente, indicar que os nexos genéticos e de sentido correm em direção inversa para que essa teoria seja abolida pela problemática principial da filosofia.

A teoria mencionada não é recente, tendo suas raízes na história do espírito e de sua execução na filosofia grega, onde estiveram vivas duas razões do principiar — a explicação originária da experiência e a explicação teórico-categorial —, tendo uma delas se perdido no processo de nivelamento do originário, e tendo passado por importantes entrelaçamentos históricos do espírito cujos vestígios permanecem na problemática da atual teoria do conhecimento, servindo essa indicação apenas para evitar o estreitamento do sentido de significância e a antecipação de seu caráter fundamentado.

Na categoria da significância mostra-se já como um objeto está na vida segundo seu sentido fundamental próprio de conteúdo, como ali ele se mantém e se comporta num mundo enquanto mundo.

A vida como cuidar (Sorgen) vive num mundo e cuida de si nos mais diversos modos de relação, execução e temporalização, em função dos objetos encontrados na experiência e dos próprios encontros, não sendo o objeto da cura a significância enquanto caráter categorial, mas o cada vez mundano que encontra sua expressão objetual correspondente, formulada pela própria vida.

  • A significância como tal não é experimentada expressamente, embora possa ser experimentada, tendo esse “pode” seu sentido categorial específico na transição da expressividade para a inexpressividade.
  • A significância torna-se expressa na interpretação própria (eigene) da vida em relação a si mesma, sendo somente a partir daí que se compreende o que significa viver faticamente “na” significância, isto é, viver em e a partir de objetos no caráter categorial de conteúdo do significativo.

No cuidar, a vida experimenta a cada vez seu mundo, fornecendo esse sentido fundamental do ser experimentado, antecipadamente e segundo o sentido pleno, para toda interpretação da objetualidade, mesmo a interpretação lógico-formal.

A mobilidade da vida fática pode ser interpretada e previamente descrita como a inquietação (Unruhe), sendo o como dessa inquietação, enquanto fenômeno pleno, o que determina a faticidade, remetendo-se essa consideração a Pascal quanto à descrição, embora não quanto à teoria e ao haver-prévio (Vorhabe), sobretudo no tocante à relação alma-corpo e à figura do eterno viajar, inacessíveis à filosofia existenciária, permanecendo em aberto a clarificação da inquietação, sua relação com a problematicidade (Fraglichkeit), com as potências de temporalização e com o para-quê, bem como o entre não destacado e não decidido do aspecto da vida fática entre mundo circunstante, compartilhado, próprio, anterior e posterior.

b) Diretivas (Weisungen) do cuidar

Esse cuidar está sempre numa diretiva determinada ou indeterminada, segura ou cambaleante, que a vida encontra, acolhe e para dentro da qual cresce, dando-a a si mesma ou nela vivendo mesmo quando essa diretiva decai e se perde sem deixar de estar presente, podendo a vida plena efetivar-se em diretivas cunhadas e, com essa cunhagem do cuidar, trazer a destaque mundos do cuidar cada vez específicos, estando o para-onde a vida fática se abre cuidando sempre num dos mundos fundamentais destacáveis, caracterizados como mundo circunstante, compartilhado e próprio.

Esses mundos não podem ser colocados lado a lado ordenadamente como três regiões ou âmbitos da realidade delimitados de forma prévia e absoluta, crescendo ou diminuindo conforme existam mais ou menos objetos, coisas ou pessoas, mas sua distinção segue antes o sentido da cunhagem do modo de cuidar, motivado diferentemente a cada vez, não coincidindo tampouco a sequência de sua caracterização com a sequência na qual se temporalizam seu destaque e sua possibilidade de ser experimentada de forma expressa.

De início, o mundo próprio não pode ser identificado com o “eu”, categoria de formulação mais complexa que não precisa necessariamente se encontrar como tal na cura pelo mundo próprio, sendo o “mim” pelo qual se nutre cuidado experimentado em determinadas significâncias que se abrem para o pleno mundo da vida, no qual, junto com o mundo próprio, estão sempre presentes também o mundo compartilhado e o mundo circunstante, sendo a cunhagem um como da faticidade.

Nenhum desses mundos precisa deter, quanto à cunhagem ou à sua expressividade, um lugar privilegiado, sendo próprio do modo de temporalização da vida fática que ela seja vivida numa falta de nitidez específica quanto ao destaque entre esses mundos, não constituindo esse não-ganhar-destaque uma privação, mas um caráter próprio positivo.

Toda e qualquer execução do destaque, expressa ou não, determina o modo pelo qual a vida passa a viver primordialmente no mundo destacado, realizando-se esses destaques novamente na faticidade e segundo seu próprio sentido, não sendo o trazer a destaque um mero perceber (Beachtung) expresso, mas primariamente uma tomada de diretiva de toda a vida, de modo que o trazer a destaque do mundo próprio, por exemplo, não nega os demais, mas realiza também uma apropriação do mundo compartilhado e do mundo circunstante, e assim em relação a cada um deles.

O viver e cuidar no mundo próprio não repousa numa autorreflexão no sentido usual da palavra, num isolamento subjetivístico desprovido de eu, confundindo tais explicações a problemática em seu fundamento, uma vez que o encontrar-se no mundo onde se vive, metido nele, com aquilo que sucede ou fracassa ao redor, no mundo circunstante e no mundo compartilhado, configura um mundo cuja significância determinada se ganha a partir do próprio (Selbst), sem que este esteja aí reflexivamente ou seja encenado expressamente nessa reflexão.

A experiência do mundo próprio nada tem, portanto, a ver com reflexão psicológica ou psicológico-teórica, nem com a percepção interior de vivências, processos e atos psíquicos, sendo o mundo próprio aquele em que se está mundanamente, também presente e acolhido, no qual algo “acontece” e no qual se atua, constituindo esse modo de coexperimentar e cuidar o modo “usual”, categoria fundamental da vida em sua faticidade, sem que o mundo próprio precise, de algum modo, desligar-se do pleno mundo da vida ou dos mundos circunstante e compartilhado.

Em parte, o mundo compartilhado encontra-se no mundo próprio, na medida em que se vive com outras pessoas e se está relacionado com elas no cuidado, encontrando-se a si mesmo em seu mundo de cuidado, não estando o mundo compartilhado que não é mundo próprio ordenadamente separado deste, podendo a “distribuição” deslocar-se a todo instante conforme o caráter da vida experimentada em encontros, encontros esses que têm suas próprias possibilidades em toda vida fática na medida em que esta está carregada de possibilidades e cria ela própria possibilidades.

Na experiência de vida dentro do mundo próprio enquanto mundo compartilhado está presente também o mundo circunstante, círculo de objetos com caracteres de conteúdo distintos da significância própria do mundo compartilhado, na medida em que tais objetos não possuem os caracteres de ser e caracteres-o-que próprios “dos seres humanos”, isto é, dos que podem ter um mundo dentro da cura, observando-se, na destruição da história do espírito, como a definição psicológico-teorética do homo animal rationale subjuga a problemática da existência em concepções prévias desvirtuadas.

O mundo circunstante não tem delimitação ordenada, determinando-se o “circunstante” a cada vez a partir do sentido de execução e do sentido relacional do cuidar e de sua diretiva predominante, do trato ou estar às voltas com (Umgang) e do alcance e originariedade desse estar às voltas com, modificando-se constantemente o que a ele pertence conforme as significâncias interpelem a faticidade de modo mais ou menos nítido e constante.

  • Essa permeabilidade difusa (Verschwimmbarkeit) do mundo da vida e a deslocabilidade ininterrupta de sua amplidão radicam-se no caráter de temporalização de toda vida, referida faticamente a mundo.
  • O “avançar a partir daí” fático, que vem ao encontro do cuidar, é constitutivo para o sentido do ser desse “aí” (da).

O como do ser-relacionado-com-o-mundo e o próprio mundo estão na temporalização fática, o que não deve ser representado idealisticamente nem de outra forma epistemológica como produção isolada do mundo, sendo, na temporalização, o encontro de um mundo tão relevante quanto o encontro de um objeto do mundo.

Convém desconsiderar aqui as interpretações e tendências de representação injetadas pela teoria do conhecimento, devendo-se negar que nas discussões entre idealismo e realismo se encontre um problema filosófico real, constituindo o fato de Kant ter “feito” teoria do conhecimento uma das belas invenções do século XIX, ainda que nelas atue sempre uma razão autêntica, não porém epistemológica, razão pela qual tampouco se poderá temporalizar genuinamente uma “teoria do conhecimento” como ciência fundamental da filosofia.

Dentro da vida fática de um mundo de vida concreto, os mundos circunstante, compartilhado e próprio podem ser encontrados de maneira diversa, tornando-se decisivas, nesse encontro, significâncias históricas cada vez diferentes, que trazem o mundo próprio a um nexo conjuntural de realização determinado.

De imediato conquistou-se a caracterização fundamental do sentido relacional de “vida” como cuidar, o caráter fundamental de conteúdo da vida enquanto “mundo” determinado categorialmente como significância, e, na perspectiva da possível cunhagem do cuidar, três diretivas características que a vida pode “ter”, facultativamente, sem que nada seja certo quanto a esse chegar a elas (Dazukommen), permanecendo a vida, na maioria das vezes, sem trazer-se expressamente para uma dessas diretivas destacantes.

A vida coconcebe a cada vez uma diretiva fundamental e cresce para dentro de uma delas, podendo chegar à sua adoção expressa sem que isso seja necessário, sendo as diretivas contingentes e insinuando-se (Eingleiten) na vida, determinando-se o mundo circunstante a partir do estar às voltas com, cujo caráter permanece contínuo e permeável através dos demais.

  • A vida que assumiu expressamente uma diretiva pode retornar à indestacabilidade (Unabgehobenheit) do “viver” no respectivo mundo.
  • O caráter de execução desse retorno difere daquele próprio do modo não destacado de viver num mundo, que jamais passou por um destacamento (Abhebung).

O cuidar constitui o sentido fundamental da relação de vida, sendo o sentido relacional, em cada um de seus modos, em si mesmo um indicar dotado de diretiva, que a vida dá a si mesma e experimenta como instrução, cabendo apreender o sentido total da intencionalidade em seu originário, sem impostamento teórico empalidecido nem universal pervertido, mas segundo o autenticamente formal-existenciário do cuidar em seu sentido relacional pleno e indicativo-formal.

Por menos transparente e palpável que se apresente ainda esse todo, cujo significado a filosofia facilmente sobrestima, deve ficar claro, a partir do traço do principiar e do nexo de problemas, que não vige aqui a opinião de que a filosofia seria um deslocamento do espírito, uma fantasia da vida e do pensar elevada a princípio, fazendo antes parte do estágio fundamental do filosofar compreender que esses nexos categoriais estão vivos na própria vida concreta, e não são meras arbitrariedades constatáveis e sem importância.

  • Compreender que estão vivos na faticidade significa que encerram em si possibilidades fáticas das quais jamais podem ser liberados.
  • A interpretação filosófica que assim procede vê na faticidade, enquanto autêntica e fática, um ponto principal da filosofia, provendo de antemão, de forma radical, possibilidades de decisão que ela mesma se dá previamente, podendo tal coisa ocorrer apenas quando ela está aí, na forma de seu Dasein.

Criticá-la a partir de posicionamentos totalmente estranhos e afastados da problemática da faticidade é procedimento livre a qualquer um, embora deva ser reconhecido como ridículo, não podendo a crítica filosófica e a assim chamada “sustentabilidade” de explicações filosóficas assentar-se na opinião prévia de que a correção de uma frase ou princípio filosófico dependeria do reconhecimento de várias pessoas e da busca de aprovação do maior número possível delas.

  • Em todo filosofar, barrar os preconceitos ocultos e inadequados constitui medida importante e jamais supérflua, dada sua peculiaridade de sempre reaparecer.
  • O mais cômodo seria transferir-se para fora do mundo e da vida, rumo à terra da bem-aventurança e do absoluto, restando incompreensível por que ali ainda se filosofaria, estando-se já “tão longe”.
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