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1 Aristóteles

Aristóteles e a recepção de sua filosofia

A. O que significa história da filosofia?

O exame de uma filosofia do passado, no caso a de Aristóteles, é considerado trabalho de história da filosofia, cuja Geschichte sempre foi apreendida a partir de uma consciência cultural determinada, distinguindo-se o modo objetivante e tipologizante de investigar os fatos historicamente (Historische), próprio da moda dominante, do modo pelo qual o que há de propriamente histórico na filosofia só se deixa apreender no próprio filosofar, a partir da vida puramente factícia, exigindo clareza quanto ao sentido em que se cumpre o filosofar e quanto ao vínculo essencial que o une ao histórico e à história.

  • A história do espírito hoje dominante entende-se como investigação rigorosa e exata dos fatos, situando a filosofia num conjunto que inclui também ciência, arte e religião, determinando-a de antemão como historicamente objetiva, com conexões e propriedades objetivas à medida de seus objetos.
  • Não se pode desincumbir-se dessas questões antecipadamente nem tratar delas sem esse vínculo com a história, sob pena de contradizer sua problemática interna.
  • Levar a sério a tarefa da história da filosofia dentro do filosofar realiza-se precisamente ao tornar-se a problemática do ponto II concreta, precisa e radical, sendo a filosofia o conhecimento propriamente histórico da vida factícia, isto é, um conhecimento que entende a história em seu cumprimento.
  • É preciso alcançar uma inteligência categorial (existencial) e uma articulação que não interprete essa figura de separação como conjunto coerente remontando a uma origem tradicionalmente separada, mas positivamente, a partir da relação fundamental com a vida factícia como tal.
  • Se a filosofia se submete à prova da ruinância e da colocação em questão, decidindo-se a explicar radicalmente o que ela tem de factício, expõe-se então à possibilidade de uma revelação daquilo que lhe é próprio, não por pretender-se isenta de pressupostos, mas justamente por manter-se originariamente num acervo prévio, o do factício.
  • Em seu sentido corrente, a história da filosofia compreende a cronologia variada das opiniões, teorias, sistemas e máximas filosóficas desde o século VII a.C. até a época contemporânea, incluindo com razão as filosofias constituídas no desenvolvimento espiritual histórico do povo grego, que desembocou na história do cristianismo e sofreu múltiplas transformações no Ocidente cristão.
  • É nessa delimitação espaço-temporal que se entende, no presente contexto, a expressão história da filosofia, delimitação que resulta do próprio sentido da filosofia e não de mera conveniência contra o diletantismo no trato de outras filosofias.
  • A história da filosofia só pode vir à luz, ser entendida e assimilada poderosamente, e sobre essa base ser decisivamente criticada, se a própria filosofia — para a qual e na qual a história está presente — for filosofia, isto é, se ela se mantiver no questionamento de fundo e na investigação concreta de resposta.
  • A cada geração apresentam-se possibilidades determinadas de acesso à história como tal, concepções fundamentais da história inteira e certa predileção por épocas e filosofias particulares, articulando-se a relação de nosso tempo com Aristóteles a partir de três horizontes, além da influência implícita e persistente do pensamento aristotélico sobre o modo de ver e falar, sobretudo através da Lógica.

B. A recepção da filosofia aristotélica

a) Idade Média e tempos modernos

a) Na concepção de vida e civilização professada pela Igreja católica, Aristóteles goza de estima positiva apoiada na alta escolástica medieval, ao passo que a renovação da filosofia kantiana a partir dos anos sessenta do século anterior conduziu a uma posição oposta por princípio, fundada numa interpretação de Kant centrada na teoria do conhecimento que via na crítica kantiana a fundação das ciências matemáticas da natureza e o aniquilamento da antiga metafísica.

  • A partir dessa interpretação criticista de Kant, Aristóteles recua à posição de filósofo não crítico caído na metafísica ingênua, favorecida pela crença geral de que a antiga metafísica não crítica teria seu apogeu medieval, época em que Aristóteles era tido por “o Filósofo”.
  • Kant e Aristóteles partilham a pressuposição de que o mundo exterior está simplesmente aí, mas enquanto para Aristóteles o conhecimento do mundo exterior não constitui problema algum, tratando-se antes de elucidação do mundo circundante (Umwelt), para Kant o conhecimento apresenta problema bem distinto e solução determinada, não sendo lícito por isso rotular Aristóteles de realista nem tomá-lo como modelo desse realismo.
  • Essa confusão de temas heterogêneos culmina em Nicolai Hartmann, que mantém as antigas rubricas do problema do conhecimento e ainda recorre à ideia de metafísica como suposto auxílio.
  • Em reação pouco aprofundada ao neokantismo, desenvolveu-se paralelamente uma apologética de Aristóteles que, paradoxalmente, seguiu a mesma direção neokantiana ao transformá-lo também num teórico do conhecimento e modelo por excelência do realismo gnosiológico.
  • A atitude polêmica contra Aristóteles propagada pelo neokantismo rigidificou-se na consciência cultural moderna, e mesmo a moda recente de exaltar sua profundidade, sem conhecimento sério, atesta o mesmo desenraizamento apressado da época.
  • Essa avaliação polêmica assentou-se no pressuposto errôneo de que Aristóteles teria relação direta com a Idade Média ou com Kant, quando o contrário é verdadeiro, permanecendo ainda por apreender em seu enredamento originário todo esse complexo de influências mútuas, apesar da fecundidade do trabalho filológico-histórico de filiações literárias.

b) A helenização prévia da consciência cristã de vida

b) A consciência cristã de vida, tanto na primeira quanto na alta escolástica, onde se realizou a verdadeira recepção de Aristóteles com interpretação inteiramente determinada, já havia atravessado uma helenização, amadurecendo a relação com a vida originariamente cristã (urchristlich) num mundo circundante marcado pela interpretação especificamente grega da existência (Dasein) e pela conceitualidade grega, processo cumprido através de Paulo e da patrística.

  • Apesar dos resultados incontestes da pesquisa em história dos dogmas, esse processo decisivo da história espiritual ainda não foi apreendido em todo o alcance de suas implicações últimas, faltando sobretudo uma problemática de princípio centrada na existência (Dasein) e na vida factícia como interpretação imanente.
  • Contra a escolástica consolidada pela recepção aristotélica, depois remodelada pelo escotismo e ocamismo e novamente flexibilizada pela mística de Tauler, voltou-se a contra-ofensiva religiosa e teológica de Lutero, da qual se desenvolveu, por adoção, aperfeiçoamento e parcial recalque, a escolástica protestante alimentada também por temas aristotélicos via Melanchthon.
  • Essa dogmática de direções aristotélicas essenciais constitui o solo em que se enraíza o idealismo alemão, de modo que todo exame sério deste, e sobretudo de sua gênese histórica, deve partir necessariamente da situação teológica da época, já que Fichte, Schelling, Hegel e o próprio Kant só podem ser compreendidos teologicamente.
  • Dilthey possuía instinto seguro no exame dessa história espiritual, mas viu-se limitado por método e recursos conceituais insuficientes, o que lhe barrou o caminho para uma compreensão radical dos problemas.

c) A pesquisa filológica propriamente histórica

c) Ao lado das duas orientações opostas de estimação positiva e rejeição de Aristóteles, desenvolveu-se ao longo do século XIX e até hoje uma fecunda pesquisa filológico-histórica do corpus aristotélico, mal tocada por ambos os grupos, originada da ideia schleiermacheriana de uma edição integral e crítica de Aristóteles, encampada pela Academia de Ciências de Berlim e da qual deriva a citação corrente de Aristóteles.

  • A mesma Academia empreendeu depois a edição dos comentadores gregos de Aristóteles (Commentaria in Aristotelem, com o Supplementum Aristotelicum), constituindo assim base mais ampla e segura para uma investigação filosófica frutífera.
  • Dessa pesquisa filológica deriva uma via colateral com Trendelenburg, cujo discípulo Brentano teve importância crucial para a filosofia atual em suas principais correntes, exceto a escola de Marburgo, afirmação que se justifica a quem atenta aos problemas e esforços realmente fecundos, e não à mera cronologia das escolas.
  • Foi em Brentano que Husserl viu o que havia de decisivo, superando-o do modo mais radical, ao passo que os demais filósofos influenciados por Brentano desenvolveram interpretações particulares sem alçá-las ao nível de uma compreensão verdadeira e à altura do problema.
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