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obra:ga33:ga33-4

GA33: §4

§ 4. Multiplicidade e unidade do ser

  • A distinção entre ente e ser é tão antiga quanto a linguagem e, portanto, tão antiga quanto o homem; mas narrar algo sobre essa distinção não é o mesmo que compreendê-la, e permanece sem resposta como a compreensão, o conceito, é determinado precisamente a partir desse limite; há muito persiste o equívoco de que o ser equivale ao “é” e de que o “é” só seria dito no juízo, quando na verdade essa má interpretação se apoia apenas pela metade na Antiguidade, o que equivale a não se apoiar nela de modo algum.
  • Aristóteles afirma que o ser é uno, e ao mesmo tempo é o princípio condutor de toda a sua filosofia que o ente é dito em muitos sentidos; isso parece colocar Aristóteles em oposição a Parmênides, que identifica o ente com o uno e simples, mas Aristóteles não abandona a verdade de Parmênides; ao contrário, ele a realiza de modo mais próprio ao fazê-la uma verdadeira questão filosófica.
  • O plurissignificativo não afasta o uno, mas o força a se impor no múltiplo como o que é digno de questão; não se trata de um mero enriquecimento, mas de uma transformação de toda a questão: a pergunta pelo ente como uno ganha agora sua agudeza; antes disso, contudo, foi necessário um passo decisivo diante de Parmênides, e esse passo foi dado por Platão.
  • Platão conquistou a compreensão de que o não-ente, o falso, o mau, o sem consistência, também é; com isso o sentido do ser teve de se transformar, pois o caráter negativo teve de ser incorporado à essência do ser; se o ser é desde sempre o uno, essa irrupção do negativo na unidade significa seu desdobramento na multiplicidade, e tanto o múltiplo quanto o uno passam a ser reconhecidos como pertencentes um ao outro.
  • A partir da compreensão de Platão, Aristóteles deu um passo igualmente decisivo ao ver que essa multiplicidade do ser é articulada de modo múltiplo e que essa articulação tem sua própria necessidade; se a relação fundamental entre Platão e Aristóteles é indecidível, deve ser rejeitada também a pseudo-filologia que busca em Platão uma forma prévia para cada pensamento aristotélico, pois com a questão imbecil de quem lhe ensinou isso já se excluiu a possibilidade de ser atingido por uma filosofia.
  • Aristóteles reconhece que a unidade das quatro significações do ser permanece obscura, mas isso não exclui, antes inclui em um filósofo de seu porte, que essa unidade diante de sua multiplicidade fosse o inquietante; Aristóteles afirma que o ente é dito de muitos modos e não segundo um único modo, mas vê imediatamente a consequência: o possível colapso do ente em muitos tropos e a dissolução do uno.
  • Em resposta, Aristóteles enfatiza que para todo ente, de qualquer significação, há uma remissão a um certo uno e comum; com o prudente e aberto “algo como” ele fala da unidade última e suprema do ser; o ente e o uno são diferentes segundo o conceito, mas segundo a essência são o mesmo, e Aristóteles caracteriza essa relação como um seguir-se mutuamente e um voltar-se um para o outro: o ente e o uno nunca se perdem de vista.
  • A unidade do ser não está apenas preservada diante de sua multiplicidade, mas precisamente para ela, no sentido em que Aristóteles e Platão entendem preservar: deixar algo valer no que é, não deixar que escorregue e seja encoberto pela tagarelice do entendimento comum; e porque o ente e o uno se copertencem, o ser e a unidade são ditos com igual multiplicidade.
  • A questão decisiva, porém, permanece sem resposta: de que modo é o ser como dito de muitos modos de alguma forma comum para os muitos? O ser uno é algo antes de todo desdobramento e subsiste por si como a verdadeira essência do ser? Ou o ser nunca é sem desdobramento, de modo que a multiplicidade e seu entrelaçamento constituem a unidade peculiar do recolhido em si? Essas são questões de Ser e Tempo, e nem Aristóteles, nem os que vieram antes ou depois dele, as formularam ou buscaram um solo para elas como questões.
  • A mais funesta má interpretação da filosofia aristotélica, alimentada sobretudo pelos teólogos medievais, consistiu em converter as tentativas cautelosíssimas e provisórias de questionar dentro da questão diretriz sobre o ser em primeiras respostas óbvias e proposições principais de uma suposta filosofia aristotélica; a questão sobre ser e unidade foi transformada no axioma não mais discutido ens et unum convertuntur, e os tratados aristotélicos se tornaram um depósito, ou melhor, um túmulo de proposições mortas.
  • As consequências desse soterramento do fundamento originário do filosofar aristotélico ainda se mostram em Kant, que tentou devolver ao ensinamento da filosofia escolar um sentido genuíno, ainda que não originário; mas se se tomar Kant não no sentido dos neokantianos e se perguntar pela raiz da unidade originária da apercepção transcendental, mostra-se que Kant foi o primeiro desde Aristóteles a estar em movimento em direção à questão real sobre o ser.
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