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obra:ga32:ga32-4

GA32: §4

§ 4. A incumbência interna da Fenomenologia do espírito como primeira parte do sistema

  • O título Sistema da experiência do espírito reúne elementos decisivos dos títulos anteriores e indica que a obra constitui o todo absoluto da experiência que o saber deve fazer consigo mesmo, experiência na qual ele se revela como espírito e como saber absoluto.
  • A explicação do título completo ainda exige responder por que o sistema da ciência requer como primeira parte a ciência da experiência da consciência ou a ciência da fenomenologia do espírito, pois só assim se esclarece o sentido de primeira parte e a coexistência de um título principal e de um subtítulo.

a) O vir-a-si-mesmo do saber absoluto

  • A função do primeiro momento só se compreende plenamente a partir do segundo, mas a elucidação do título já permite apreender a incumbência interna da obra como primeira parte do sistema.
  • A primeira exposição da ciência faz aparecer o saber absoluto, isto é, o próprio absoluto, no processo de tornar-se outro e de retornar a si, para que ele se compreenda como saber absoluto em sua essência e em sua natureza.
  • A exposição do espírito que aparece em seu movimento torna-se ela mesma o saber absoluto efetivo, de modo que a exposição coincide necessariamente com o exposto, pois o saber absoluto deve ser como o saber que é, isto é, deve saber-se absolutamente.
  • O saber absoluto alcança seu próprio elemento e nele se desdobra absolutamente, e esse saber desdobrado corresponde ao segundo momento do sistema, enquanto a primeira exposição possui a tarefa de preparar o elemento ou éter no qual o saber absoluto respira como tal.
  • O primeiro momento do sistema conduz o saber absoluto a si mesmo e ao seu próprio reino, de modo que o espírito, ao saber-se como espírito, torna-se ciência e constrói em seu próprio elemento a realidade na qual sua soberania deve efetivar-se.
  • O vir-a-si-mesmo do espírito ocorre pelo caminho exigido por sua própria possibilidade de movimento, isto é, pela experiência ou fenomenologia, e o âmbito desse reino não é uma delimitação exterior, mas a própria realidade do espírito absoluto que se edifica e incorpora aquilo que aparece em seu percurso.
  • O aparecer das figuras da consciência não é uma sucessão exterior de formas, mas a história absoluta do espírito absoluto, na qual ele se transmite a si mesmo e supera essa transmissão nos sentidos simultâneos de retirar a aparência inicial, conservar o ocorrido na experiência e elevar tudo a um grau superior de saber de si e do sabido.
  • A ciência, enquanto sistema, exige que o saber absoluto se saiba absolutamente para possuir nesse saber seu reino e sua realidade, de modo que a necessidade da Fenomenologia do espírito só se torna compreensível a partir do conceito hegeliano de espírito.

b) Interpretações equivocadas da intenção da Fenomenologia

  • A Fenomenologia do espírito não tem relação temática, metodológica ou problemática com a fenomenologia da consciência em sentido contemporâneo husserliano, mesmo quando esta assume a tarefa transcendental de fundamentar a cientificidade das ciências ou de investigar a constituição consciente da cultura humana.
  • As figuras da consciência em Hegel não devem ser confundidas com tipologias de visões de mundo ou de posições filosóficas, pois tais classificações substituem a confrontação com a coisa filosófica por marcas externas, comparações de rótulos e literatura secundária que impede o acesso ao próprio pensamento.
  • O recurso contemporâneo a tipologias e morfologias filosóficas manifesta a força da sofística quando falta vigor para filosofar, e sua invocação da Fenomenologia do espírito como antecedente de esquemas psicológicos ou sociológicos modernos constitui uma distorção da intenção hegeliana.
  • A Fenomenologia do espírito também não deve ser tomada como simples introdução à filosofia, no sentido de uma orientação pedagógica que conduziria da consciência natural da sensibilidade ao saber filosófico especulativo.
  • A Fenomenologia do espírito não é fenomenologia moderna, nem tipologia de posições filosóficas, nem introdução didática à filosofia, mas a autodescrição absoluta da razão exigida pelo problema fundamental da filosofia ocidental e conduzida pelo idealismo alemão à forma do espírito absoluto.
  • A alternativa entre racionalismo e irracionalismo não apreende a filosofia de Hegel, pois ambas são rotulações exteriores que não conseguem desenvolver o pensamento hegeliano a partir de seu problema fundamental.

c) Condições da confrontação com Hegel

  • A Fenomenologia, por sua intenção e incumbência interna, move-se desde o início no elemento do saber absoluto e somente por isso pode pretender preparar esse elemento.
  • Hegel pressupõe no começo da obra aquilo que deve ser conquistado no fim, mas essa antecipação não constitui objeção legítima, pois pertence à essência da filosofia tomar de antemão aquilo que ela explicita a partir de suas questões fundamentais.
  • A antecipação filosófica não é fraude demonstrativa nem mero procedimento aparente, porque a filosofia não se guia por regras formais externas de prova, mas pela lógica própria de sua questão essencial.
  • A sofística não pode receber prova da verdade filosófica enquanto permanece fora da filosofia, pois só poderia compreendê-la ao entregar-se à própria filosofia e, nesse gesto, abandonar-se como sofística.
  • Entrar em confrontação com a filosofia significa encontrar-se com ela em seu essencial, para esclarecer diante de suas tarefas se ainda há tarefas essenciais próprias e quais elas poderiam ser.
  • A confrontação efetiva exige um espírito aparentado, não no sentido de igualdade de posição, escola, doutrina, conceitos ou resultados, mas como obrigação diante das primeiras e últimas necessidades da pergunta filosófica.
  • O espírito vivo da filosofia hegeliana deve ser buscado onde Hegel procura demonstrar a verdade do ponto de vista da filosofia, isto é, na ciência da experiência da consciência como ciência da fenomenologia do espírito e primeira exposição do sistema da ciência.
  • A preparação para a filosofia não consiste em pretender oferecer uma verdade definitiva à humanidade, mas em reabrir a disposição pela qual o Dasein concede liberdade para despertar a prontidão diante da obra filosófica de Hegel e dos demais pensadores com ele.
  • A relação com Hegel e com os outros filósofos não deve apoiar-se em empreendimentos literários nem na suposta superioridade dos que vêm depois, pois na filosofia não há predecessores nem sucessores, já que todo filósofo verdadeiro é contemporâneo dos demais ao dizer intimamente a palavra de seu tempo.
  • A prontidão para a filosofia exige não desprezar a filosofia já efetivada em obras, e o desprezo mais agudo consiste em reduzi-la a citações ocasionais, deformações e matéria entregue aos historiadores, esquecendo que nela está em jogo uma realidade da qual a época presente se encontra afastada.
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