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obra:ga17:ga17-6-9-phainomenon

GA17:6-9 – PHAINOMENON

a) O phainomenon como Modo Distintivo da Presença de um Ente: Existência Durante o Dia

1. A fenomenologia se compõe de logos e phainomenon, significando phainomenon algo que se mostra a si mesmo, sendo phainomai o mesmo que “mostrar-se a si mesmo”, e phaino o mesmo que “trazer algo à luz do dia”, estando o radical pha ligado a phos, que é o mesmo que luz, claridade diurna.

  • Num texto concreto de investigações científicas é necessário estabelecer que fatos da coisa são significados pelas palavras, devendo-se considerar o fato da coisa à parte da palavra e, então, com base no texto, estabelecer o sentido em que esse fato da coisa é significado pela palavra.
  • Para esse propósito escolhe-se o De Anima de Aristóteles, Livro II, Capítulo 7, que trata do perceber o mundo por meio do ver, sendo necessário manter afastado todo conhecimento de física, de fisiologia, já que carecem do foco de Aristóteles, jamais tendo sido tentada de novo uma explicitação com esse tipo de concretude.

2. O que é ver, o que é aquilo que é percebido enquanto tal no ver, como é caracterizado, quanto a seu conteúdo e sua perceptibilidade, aquilo que é acessível no ver?

  • Aquilo de que há visão é o visível, sendo algo dessa espécie caracterizado como cor, sendo a cor aquilo que se espalha sobre algo visível em si mesmo, sendo a coloração respectiva de um ente percebida, em cada caso, en photi, na luz, mais precisamente, na claridade diurna.

3. Deve-se, assim, primeiramente esclarecer o que é a claridade diurna, sendo essa claridade aparentemente algo que deixa algo mais ser visto através dela, diaphanes, transparente.

  • Essa claridade diurna não é ela mesma visível, mas apenas por meio de uma cor, alheia a ela, sendo a claridade diurna aquilo que permite que algo seja visto, a saber, a cor própria (oikeion chroma) das coisas que tenho na claridade diurna.
  • Aristóteles descobriu que a claridade diurna não é um corpo, tendo-se explicado o que é o transparente e o que é a luz, que ela não é fogo nem corpo algum, nem sequer o efluxo de um corpo, mas antes a presença do fogo ou de algo semelhante no transparente.

4. Descobriu-se ainda que a claridade diurna não se move, sendo antes o modo próprio de existir do céu, permitindo que as coisas sejam vistas, o ser do dia, sendo a claridade diurna um modo de presença (de algo) (parousia, entelecheia).

  • Empédocles ensinou que a luz se move, mas Empédocles não estava correto, tendo Trendelenburg visto na doutrina aristotélica um retrocesso, mostrando esse juízo, contudo, que ele não compreendeu Aristóteles de modo algum.

5. Aisthesis é o modo de existir de algo vivo em seu mundo, caracterizando Aristóteles os modos de perceber as coisas por meio da espécie de coisa percebida, daquilo que é acessível no perceber, havendo três espécies de aistheta: primeiro, idia; segundo, koina; terceiro, symbebekota.

6. Um idion é algo acessível através de um modo específico de perceber, e apenas através desse modo de perceber, tendo o caráter de aei alethes, sempre verdadeiro, descobrindo o ver, na medida em que existe, sempre apenas cor, descobrindo o ouvir sempre apenas som.

7. O koinon são modos característicos de ser que não estão ajustados a um modo específico de perceber, por exemplo kinesis, mudança.

8. O symbebekos é aquilo que é regularmente percebido (dizendo-se que algo perceptível está incidentalmente à disposição, por exemplo se a coisa branca fosse o filho de Diares), pois, como regra, não vejo cor, não ouço sons, mas antes a canção do cantor, algo que é encontrado junto com o perceber imediato, sendo possível, e mesmo regra, o engano quando se trata da perceptibilidade de algo kata symbebekos.

9. Aristóteles determinou a cor, entre outras coisas, como um idion, sendo a claridade diurna a presença do fogo, não se movendo a claridade diurna, movendo-se apenas o sol, cuja presença é a claridade diurna.

  • Quem diz que a claridade diurna se move fala para ta phainomena, fala além daquilo que se mostra a si mesmo, sendo phainomenon aquilo que se mostra de si mesmo como sendo de certa espécie e está imediatamente aí enquanto tal.

10. Falando à maneira kantiana, a claridade diurna é a condição de possibilidade da perceptibilidade da cor, podendo-se reconhecer, precisamente nesse uso kantiano da linguagem, a diferença entre o que, em ambos os casos, se entende por “condição”, não devendo isso significar, contudo, que Aristóteles e Kant devam ser contrapostos um ao outro como realista e idealista (não havendo tal contraposição na filosofia grega).

  • O que significa “condição de possibilidade da perceptibilidade da cor”, o que significa “ser uma condição” para Aristóteles? A cor é vista na claridade diurna, devendo a coisa vista estar de dia, sendo a claridade diurna algo que faz parte do próprio ser do mundo, sendo a claridade diurna a presença do sol.
  • O caráter de ser desse modo de ser-presente é deixar que as coisas sejam vistas através dela, sendo deixar-algo-ser-visto o modo de ser do sol, estando a perceptibilidade das coisas sujeita a uma condição, a de um modo específico de ser desse próprio mundo.
  • “Ser uma condição” aplica-se a um modo de ser do próprio mundo, sendo o estar-à-disposição do sol, precisamente aquilo que se significa ao se determinar que é dia, parte da existência no mundo, falando-se, por esse meio, de um fato da coisa que faz parte do próprio ser do mundo, resultando disso que phainomenon significa inicialmente nada mais do que um modo distintivo da presença de um ente.
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