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GA17:31-38 – PSEUDOS

** d) Os três aspectos do ψεῦδος. A existência factual do falar como fonte autêntica do engano. Circunstancialidade e esquividade do mundo **

1. Aristóteles trata do pseudos na Metafísica, livro V, capítulo 29, discutindo ali o que é expresso de múltiplos modos e o que é dito com diversidade de significado, distinguindo o pseudos em três respeitos: 1. hos pragma pseudos, um ser falso que concerne ao ser genuíno dos pragmata, como quando se designa e se fala de coisas como falsas, “ouro falso”; 2. logos pseudes, quando o logos, a fala, o discurso é falso; 3. hos anthropos pseudes, quando um homem é falso, recaindo assim o pseudos sobre o mundo, sobre o falar, sobre o ser específico no mundo e sobre os entes mesmos.

2. A prontidão para destacar coisas umas das outras já é, como tal, um ostender (portanto, não um julgar), devendo um ente existente ser mostrado como ente existente, sendo o potencial que possui um âmbito específico de coisas destacáveis entre si, de fato, cada instância de destacar uma coisa de outra, em sua tendência a apontar algo, um meio de estabelecer, de determinar algo como algo.

  • Esse algo definido é construído como o um em contraste com outro, sendo algo outro com base em um caráter específico da matéria: “branco” é em si mesmo algo outro que “preto”.
  • Nesse modo de destacar uma coisa de outra, o “que” ou “como”, o “ser-outro-que” ou “não-ser-como”, é tornado explícito, não precisando o ser-outro ser ele mesmo tematizado, sendo o tema a própria cor, apreendida com ênfase distintiva e destacada como tal.
  • O “como” crítico (kritische als) surge no campo da perceptibilidade: azul outro que vermelho, azul como não-vermelho, não sendo esse, porém, o “como” pleno (das volle als), ao qual pertence ainda o “como” enquanto demonstrativo (als als aufweisendes), sendo essa duplicação do caráter do “como” encoberta pela linguagem.
  • O apophantikos-como é evidente em todo falar, mas em todo falar está também presente o “como” crítico.

3. Coloca-se a questão de como a possibilidade do pseudos se funda no próprio logos, sendo o pseudos o apresentar ostensivo de algo como algo, sendo, por isso, mais do que meramente ocultar algo sem apresentá-lo como algo diverso do que é, perguntando-se em que respeito uma coisa (Sache, pragma) pode ser falsa quanto ao seu ser enquanto coisa.

  • Um sentido do “falso” é a coisa falsa, e desta, um sentido está em não estar junto ou não poder estar junto, como se diz da diagonal ser comensurável ou de estares sentado, sendo de tais coisas uma sempre falsa, a outra apenas às vezes, não sendo, assim, esses entes.
  • Uma possibilidade de ser falso reside no fato de o conteúdo específico dos caracteres não permitir que sejam reunidos com base nos estados de coisas em que figuram.

4. Há coisas que, embora existentes, têm por natureza a propriedade de aparecer diversas do que são ou como coisas que não existem, como o esboço (skiagraphia) e os sonhos, pois essas coisas são algo, mas não aquilo de que produzem a aparência, dizendo-se, assim, que as coisas são falsas por não existirem elas mesmas ou por a aparência que delas parte ser de algo que não existe.

  • Há entes que, em seu modo específico de ser, têm a peculiaridade de se apresentar como algo que não são ou como caracterizados de um modo que não são, residindo aqui a possibilidade do engano não primariamente em uma concepção equivocada, mas no próprio ente.

5. Coloca-se a questão de como pode haver falar de um pseudos no caso em que o dado de fato designado como falso simplesmente não existe, como se dá aí a possibilidade de um pseudos onde o dado de fato relevante de modo algum existe, como a linguagem chega a caracterizar um não-ser como um ser falso.

  • Um exemplo disso é o modo como a diagonal de um quadrado pode ser apresentada por uma proporção definida, dando os dados de fato inicialmente a impressão de serem mensuráveis, havendo, naquilo que se encontra, uma expectativa definida de que algo tenha seu ser neste ou naquele respeito com base em algo na coisa em questão.
  • Tão logo, porém, se torna evidente por demonstração que tal existência é impossível, esse caráter passa a caracterizar o seu ser.

6. Cada um dos três sentidos do pseudos considera um dado de fato sob um respeito definido, mas de tal modo que os outros também são levados em conta, apontando assim o pragma pseudes para o logos pseudes.

  • O logos de cada coisa é, por um lado, um só (o “o que era ser” dela) e, por outro, muitos, uma vez que a própria coisa e a coisa afetada são de certo modo as mesmas, como Sócrates e um Sócrates músico.

7. Para cada ente existente enquanto tal há um único logos por meio do qual se pode falar da própria coisa em seu ser, o horismos, sendo esse o modo de falar de uma coisa por meio do qual ela é comprimida nos limites de seu ser e determinada.

  • Há, além disso, logoi por meio dos quais se pode falar das coisas sob muitos respeitos, vendo-se as coisas em termos das circunstâncias (auto peponthos) em que se tem algo a ver com elas, permitindo esse caráter circunstancial do estado de coisas muitos logoi que falam delas.
  • O logos falso é simplesmente o logos de nada, sendo esses logoi aqueles pelos quais se fala de uma coisa de tal modo que o que se diz dela não se obtém dela apenas, mas em relação a algo outro com que já se está familiarizado, situando-se esses diversos respeitos, em termos dos quais se pode falar de uma coisa de múltiplos modos, fora da própria coisa.
  • Aquilo para que se olha é algo que se deve trazer à consideração ao se determinar a matéria, não sendo tal logos jamais simples, sendo o logos simples aquele por meio do qual se determina a própria coisa, sem dela se afastar.

8. O segundo sentido do pseudos é o logos pseudes, trabalhando Aristóteles aqui com a distinção segundo a qual há um único modo de dirigir-se a cada ente, quando este é tomado em seu conteúdo factual e em seu modo de ser: o horismos.

  • Ao lado desse logos único, ajustado ao ente, há uma série de logoi flutuantes livremente, o que explica o fato de existir algo como o engano.
  • Aproveita-se a ocasião para destacar uma questão muito discutida na tradição, a saber, a de que não pode haver contradição se há apenas um modo específico de falar de cada ente, não havendo contradição na medida em que só existem logoi que se aplicam respectivamente à sua matéria, transcorrendo a contradição apenas em uma dimensão bastante específica, não onde se trata da própria coisa, mas onde se fala em torno dela.

9. É possível dirigir-se a cada coisa não apenas por meio de seu próprio logos, mas também por meio do logos de outra, ora falsamente e por completo, ora também verdadeiramente, como ao falar do oito como dobro segundo o logos do dois.

  • É possível dirigir-se a qualquer ente particular existente não apenas por meio do modo pelo qual ele mesmo é acessível, mas sob qualquer respeito referente a outros entes, podendo os muitos logoi geralmente enganar, mas podendo também, em certos casos, acertar o alvo.

10. O terceiro sentido do pseudos, tal como Aristóteles dele fala, é o anthropos pseudes (o homem falso), sendo chamado falso o homem que prontamente e deliberadamente produz tais logoi, sendo esse o proairetikos, aquele que se resolve a ocultar o estado de coisas, de tal modo que isso é inerente à sua existência, alguém que incute tais modos de falar em outros, sendo seu modo de comportar-se tal que, por princípio, ele engana aqueles com quem fala.

11. Para responder à questão de como os três sentidos do pseudos dependem uns dos outros, considera-se o logos concreto de um homem que vive em um mundo, cujos pragmata podem ser ditos pseudos, transpondo-se o sentido de pseudos para a esfera da existência factual.

  • Um homem, ao falar sobre o mundo existente tal como o encontra, pode mentir, constituindo pragma, o homem e o logos os três respeitos que remetem a um fenômeno fundamental (Grundphänomen) que não foi visto por Aristóteles.
  • Tomando-se o sentido de pseudos nesse sentido primordial, a fim de, a partir daí, tornar inteligível o fato de que se designam falsamente as coisas, quer-se compreender como se dá que as coisas sejam assim designadas, sendo necessário, para a compreensão da análise, ater-se a um dado de fato (Tatbestand): a existência factual do falar como tal, na medida e apenas na medida em que ela está aí como falar, é a fonte genuína do engano, isto é, a existência do falar traz em si mesma a possibilidade do engano, residindo a mentira na facticidade da linguagem (Faktizität der Sprache).

12. Tenta-se, na medida do possível, aproximar-se do que seja a facticidade do falar, a qual se dá no âmbito de homens que existem em um mundo que compartilham, sendo o falar enquanto tal, o caráter factual do falar, concebido desde o início como o falar-se sobre algo.

  • Esse falar-aqui-e-agora é tomado no sentido de ter a tendência a dizer algo, estando em exibição pública, estando assim o falar aqui, desde o início, com a existência dos homens que falam, sendo tomado, desde o princípio, como uma ostensão de algo, fazendo a reivindicação natural e vital de dizer algo.
  • Apenas em virtude do fato da vocalização, algo é anunciado, apresentando-se assim a possibilidade de ocultar algo na existência, na medida em que se diz algo diverso do que se pensa, mas o que se diz o apresenta de outro modo do que está aí, residindo a facticidade do mentir nessa possibilidade básica do falar.
  • Uma pessoa mendaz é capaz de resolver-se explicitamente a ocultar, falando de tal modo que o que diz oculta o dado de fato sobre o qual faz uma asserção, apresentando-se aqui o fato notável de que quem mente deve estar familiarizado precisamente com o dado de fato sobre o qual faz a asserção, só se estando em posição de mentir propriamente quando se está familiarizado com o dado de fato.

13. Não é necessário que essa tendência explícita a uma vida de ocultamento esteja presente, podendo-se apontar para um modo de viver que não vive na tendência a ocultar objetos, mas apenas fala nessa direção publicamente, enganando esse falar-nessa-direção simplesmente em virtude do próprio fato de falar.

  • O verdadeiro oposto do falar não é o falar falsamente, o falar enganoso, mas o permanecer calado, podendo a tendência a explicitamente enganar retroceder, mas de tal modo que a fala, mais ou menos conscientemente, se realize em um estado de não-familiaridade com as matérias.
  • Esse é o modo específico de articular as coisas por meio de vários logoi, residindo a possibilidade do engano também no tipo de enunciado que atua em um ver defeituoso, motivado este não por descuido na observação, mas pelo modo como o ente existente vive e encontra o próprio mundo.
  • A fala pode ser tal que tenha a tendência positiva de apresentar os dados de fato tal como efetivamente são, mas fala no contexto de um modo defeituoso de ver, não sendo os dados de fato genuinamente apropriados, vivendo-se, por meio da própria linguagem, em uma concepção inteiramente determinada das coisas (Nietzsche: “toda palavra é um preconceito”).
  • Tornar-se-á claro quais são as fontes das quais podem brotar o engano e as possibilidades de engano do falar, sendo possível tomar o mundo existente sob diversos respeitos.

14. Ao lado do caráter circunstancial do falar, um motivo adicional para o fato de vermos de modo defeituoso ou de nem sempre falarmos dos dados de fato como tais reside no modo de ser do mundo que se designa como sua esquividade (Entzogenheit), a saber, que os fatos estão aí em um caráter inteiramente peculiar de não estarem aí.

  • A esquividade é algo que reside no próprio ser do mundo, cujos fenômenos incluem a luz do dia e a escuridão com as quais já se travou conhecimento, não sendo o fato de haver neblina, por exemplo, algo insignificante que se possa invocar como exemplo em algum ponto de investigações epistemológicas.
  • A esquividade é um traço próprio do mundo existente enquanto existente, podendo as coisas escapar-nos sem que isso signifique que desapareçam, ganhando vida a esquividade das coisas em virtude do fato de as encontrarmos circunstancialmente.
  • Não se veem as coisas como matérias no sentido de serem objeto de uma investigação científica, sendo essa existência das coisas muito mais rica e comportando possibilidades muito mais flutuantes do que as tematicamente preparadas.
  • Por estar o mundo, em sua riqueza, presente apenas na respectiva concretude do viver, a esquividade é muito mais abrangente e, com ela, a possibilidade do engano está à mão, sendo tanto mais genuína a existência do engano quanto mais concretamente se está no mundo.

15. Permanece a questão de como se chega a designar as próprias coisas como um engano, tendo-se até aqui apenas ressaltado que o enganar reside no falar, colocando-se a pergunta de como acontece que coisas existentes sejam designadas como falsas, e por que não nos contentamos em falar do não-existente como não-existente, dizendo aqui, com um excesso de significado, “falso”.

  • Se alguém diz “a comensurabilidade das diagonais com o lado de um quadrado não existe; esse ser é falso”, tal sentença não deve ser tomada isoladamente, mas antes no contexto de que é extraída, sendo, na maior parte, esses lados geralmente conhecidos como mensuráveis, sendo considerados mensuráveis e dando essa impressão, quando de fato não o são.
  • Esse seu não-ser, que desperta a impressão definida, é designado como falso, sendo essa impressão específica que tais objetos causam frustrada.
  • Assim, evidencia-se que também esse uso da expressão pseudos referido às coisas (na medida em que não existem) se funda no contexto unitário de que se está falando, devendo-se ver também essas coisas em um contexto.
  • Já no processo de articular, na medida em que o falar tem a tendência a ser ostensivo, há a impressão de que há algo dessa espécie em um campo onde há algo mensurável, sendo, contudo, nesse caso de falar, o fato de que o falar não está ostendendo, não está apontando um ente, sendo antes do tipo que apenas opina sobre aquilo de que fala, significando os dados de fato meramente enquanto tais.
  • Está aqui o fenômeno da nominalização e da neutralização no sentido de Husserl, podendo-se articular sentenças como meramente opinadas ou intencionadas, sendo, na medida em que tal falar se dirige à impressão mais próxima à mão, falso o que diz, sendo genuinamente enganoso.

16. Vê-se aqui a diferença entre o engano e o sonho, tendo o sonho alguma existência com base na qual engana, sendo o logos como logos apofântico, tomado em sua existência factual, o tipo de coisa que contém em si mesma a possibilidade do engano.

  • Na medida em que o logos pode caracterizar a existência de um homem, ele perpassa toda a lida do homem com seu mundo, todo ver, interpretar, articular.
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